Tenho dois receios em relação ao que escrevo no blog.
Por um lado, tenho receio de assustar a minha família e amigos com a ideia de que alguma coisa possa estar a correr mal; por isso, salvo alguns desabafos ocasionais, tento aqui deixar sempre as partes positivas, que naturalmente são apenas uma parte da história.
O segundo receio, que se tem tornado cada vez mais forte, é o de confinar estas crónicas a um registo superficial das "coisas giras" que vão acontecendo por aqui. Porque não criei o blog para ser superficial, mas sim para ser uma janela entreaberta para o que me vai cá por dentro, e porque nem todos os dias são preenchidos com "coisas giras".
Outras pessoas já me disseram que eu não devia contar aqui demasiado. A esses só peço que confiem no meu juízo. Não vou contar coisas desnecessariamente íntimas, mas também não tenho medo que os que por aqui passam fiquem a saber o que me vai na alma, ou até uma ou outra das minhas manias estranhas mas inócuas. Os blogs são também uma maneira de aprendermos uns com os outros.
Dito isto, conto-vos o que me tem (pre)ocupado a mente nos últimos tempos.
Sempre fui muito mimado pelos meus amigos. Não é que seja o miúdo mais popular da minha rua, mas graças a Deus nunca faltou quem me convidasse para almoços, jantares e "cafés"; quem me incluisse nas idas ao cinema, nos passeios mais ou menos longos e nos serões de cavaqueira; quem me contasse em primeira mão a última cusquice e quem me ligasse a meio da noite a desabafar algum problema. Na maior parte das vezes, foi mais iniciativa dos outros do que minha. Se tenho algum mérito nisto, é apenas o de me mostrar sempre disponível e o de dar sincera atenção aos outros, creio que poucos me poderão acusar do contrário.
Acontece que a vida que eu tenho aqui não é a mesma que tinha em Portugal, nem nunca poderia ser igual. Simplesmente porque esse mundo de que eu fazia parte, e continuo a fazer, não está aqui. Quando digo que é diferente, não implica que seja pior. Tenho aqui muitas coisas que não tinha em Lisboa (amigos de outras culturas, mais animação cultural, copos de cerveja com o triplo do tamanho...), e de certeza que muitos não se importariam de estar onde eu estou.
Quando vim para Londres há 2 anos, sem conhecer quase ninguém, encarava como o maior desafio aprender a passar tempo sozinho. E até achava que não me iria ligar muito a ninguém, para não ter de passar mais tarde pela tristeza da despedida (já viram tamanho disparate?).
Felizmente enganei-me: fiz muitos amigos, diverti-me, passeei e tive boas conversas. E a decisão de cá ficar a trabalhar foi muito influenciada pela vontade de prolongar mais um pouco esse espírito e adiar algumas despedidas.
A vida nova trouxe novos desafios: uma casa para cuidar, a convivência constante com o Eduardo e a Nayan, mais dinheiro no bolso, um trabalho que no geral me realiza, e agora a companhia do Artur. Mas nalgumas coisas tive algum azar: não tinha feito amigos na minha turma da faculdade, e a maioria dos amigos da residência voltou aos seus países; os colegas do trabalho são simpáticos, mas nada a minha onda; estranhamente (ou será falta de atenção?) ainda não encontrei por aqui nenhuma miúda que me entusiasmasse.
Por esta razão, não têm abundado os tais convites com que toda a vida fui mimado. Na minha cabeça, atiro as culpas para os que me estão mais próximos e fico invejoso dos amigos que mantiveram da faculdade ou dos que fizeram no trabalho. Mas claro que eles são livres de terem os seus programas e não quererem misturar, e eu tenho de o aceitar. "Quem quer a bolota, trepa", por isso tenho de ser eu a tomar a iniciativa, e um exemplo disso é o concerto a que hoje vamos. Também não me faria mal ir, pela primeira vez na vida, deliberadamente à procura de amigos (juntar-me a um grupo, por exemplo), e por certo o farei, porque sinto que me faz falta socializar.
Mas a questão central, que demorei a vislumbrar, é mais profunda que isto. Porque terei eu de depender tanto dos outros para estar mais ou menos feliz? Porque não aproveito o tempo que me sobra para desenvolver os meus talentos e os meus interesses: para ler, para escrever, tocar música, política, religião, sociologia, psicologia, cinema... Tantas coisas em Londres para aproveitar em todos esses campos, e eu fechado em casa a lamentar que ninguém me liga! E ao cultivar-me, fico mais independente, torno-me mais interessante para os outros e provavelmente até conheço mais pessoas.
Agora que o percebo - e para perceber melhor tive de o escrever -, sinto-me um bocado idiota! Mas cheio de vontade de mudar!
No regresso das férias, espero começar uma nova fase. Melhor ainda, quero começar hoje mesmo! Não quer dizer que os pensamentos vão desaparecer de um dia para ou outro, e que não volte a sentir tudo de novo. Mas terei este momento de lucidez que aqui deixo registado como referência. E se no futuro lerem por aqui mais lamentos deste género, por favor mandem-me à merda!
Ao revelar as minhas fraquezas, não o faço para incutir pena ou receber palmadinhas nas costas. A vida tem altos e baixos e de maneira nenhuma me considero infeliz. Nem minto quando aqui relato com entusiasmo a minha vida em Londres - isto é mesmo giro!
Mas faz-me bem admitir as fraquezas para andar para a frente. E rezo para que essas fraquezas sejam habitadas pela força de Cristo, para poder dizer, como São Paulo, que quando sou fraco, então é que sou forte (2 Cor 12, 10).